Doenças Neuronais

Uma Nova Fronteira no conhecimento sobre doenças do corpo e da mente

     Ao longo da história da humanidade as doenças bacterianas e virais dominaram grande parte da atenção do meio científico como um todo, levando a avanços significativos no campo da microbiologia, imunologia e até no campo das ciências  comportamentais. No entanto, nas últimas décadas, uma nova classe de doenças tem emergido como um desafio crescente para os profissionais da área da saúde: as doenças neuronais. O surgimento dos estudos que levaram a essa nova classe de doenças, já amplamente divulgados por em trabalhos científicos, livros e pesquisas fundamentais, ajudam nosso entendimento dessas condições complexas que cercam essa nova dinâmica patológica.

     O interesse pelas doenças neuronais remonta há séculos, mas foi apenas no século XX que os estudos começaram a se concentrar mais intensamente nessa área. Um marco importante foi o trabalho pioneiro de Santiago Ramón y Cajal, um neurocientista espanhol que foi premiado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1906 por suas descobertas sobre a estrutura do sistema nervoso. Suas observações microscópicas detalhadas de neurônios e sinapses lançaram as bases para o entendimento moderno do funcionamento do cérebro.

     Favorecidos pelos avanços tecnológicos significativos das últimas décadas, os estudos sobre doenças neuronais ganharam qualidade e expandiram as fronteiras do conhecimento a limites jamais experimentados. A ressonância magnética funcional (RMf) e a tomografia por emissão de pósitrons (PET) permitiram aos pesquisadores mapear a atividade cerebral em tempo real, proporcionando insights sem precedentes sobre as bases neurais de diversas condições, incluindo depressão, ansiedade, epilepsia e esquizofrenia. 

     Atualmente, cinquenta anos após o químico americano Pal Laterbur apresentar a primeira versão da ressonância magnética, cientistas estão desenvolvendo uma versão milhões de vezes mais aprimorada — com testes realizados em cérebros de ratos, conforme publicado recentemente em diversos sites. Inicialmente, tal estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences que explica que a nova geração de máquinas nasceu de uma parceria entre o Centro de Microscopia In Vivo da Duke University, Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Tennessee, Universidade da Pensilvânia, Universidade de Pittsburgh e Universidade de Indiana.

     Esses cientistas foram capazes de obter imagens de ressonância magnética 64 milhões de vezes mais nítidas que as disponíveis atualmente. Em que a ressonância testada nos roedores foi capaz de registrar imagens com tantos detalhes que cada voxel (versão 3D de um pixel) media apenas 5 mícrons — ou cinco milésimos de milímetro. Tais resultados apresentam um novo cenário para esse tipo de exame que, embora o atual seja avançado o suficiente para detectar possíveis tumores cerebrais, as imagens mais nítidas podem facilitar diagnósticos e fornecer informações mais precisas sobre o funcionamento do órgão.

     Durante a realização desses testes, a equipe utilizou um ímã potente de 9,4 Tesla (em ressonâncias magnéticas clínicas geralmente é usado uma versão de 1,5 a 3 Tesla), um conjunto de bobinas de gradiente 100 vezes mais fortes do que em exames padrão e um supercomputador equivalente a 800 laptops. Todos os equipamentos funcionaram de forma conjunta em uma única cobaia. Segundo especialistas, as áreas cerebrais afetadas pela movimentação de condições patológicas como fobias, depressão e outras lançam possibilidade de novas abordagens terapêuticas, sejam elas medicamentosas e psicoterápicas.

     Essas notícias acendem uma série de possibilidades para que as doenças psicossomáticas, aquelas em que fatores psicológicos, como estresse, ansiedade e trauma, desempenham um papel significativo na manifestação e curso da doença, possam ser avaliadas além das expressões nos sets terapêuticos e dos exames já disponíveis. Exemplos incluem doenças autoimunes, síndrome do intestino irritável, enxaqueca, eczema e úlceras gástricas, depressão, ansiedade e outras. O livro “The Body Keeps the Score” de Bessel van der Kolk é uma obra seminal que explora as complexas interações entre mente e corpo nessas condições. Bessel é fundador e médico diretor do Trauma Center (Centro de Trauma) em Brookline, Massachusetts. Ele também é professor de psiquiatria na Boston University School of Medicine (Escola de Medicina da Universidade de Boston) e diretor do National Complex Trauma Treatment Network (Complexo Nacional de Tratamento de Trauma). Para ele:

“O trauma está no meio de todos nós”. Bessel van der Kolk, médico e escritor

     Essa classe das doenças neuronais, por sua vez, envolvem disfunções no sistema nervoso central e/ou periférico, resultando em uma ampla gama de condições, desde doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, até transtornos psiquiátricos, como depressão e esquizofrenia. Pesquisadores como Eric Kandel, autor de “In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind”, também têm explorado as bases neurais dessas condições, lançando luz sobre os mecanismos subjacentes e possíveis estratégias de tratamento.

     À medida que avançamos no século XXI, as doenças neuronais representam uma fronteira emocionante e desafiadora no campo do conhecimento humano. O entendimento cada vez maior de como a mente e o corpo estão interconectados está transformando nossas abordagem, conduzindo-nos  para o diagnósticos, tratamentos e prevenção dessas condições complexas de formas mais multidisciplinares. Com pesquisas contínuas, produção e troca de conhecimento de todas as áreas do conhecimento e colaboração multidisciplinar e investimento em tecnologias inovadoras, podemos esperar avanços significativos na compreensão e tratamento das doenças neuronais num futuro bem próximo.