A Ansiedade como Sintoma Civilizatório:

Como Nossos Hábitos Alimentam a Máquina do Medo

            A ansiedade não é um acidente biológico, mas o produto final de uma linha de montagem que alimentamos diariamente. Essa é a anatomia verdadeira do vicio invisível que escraviza a humanidade de forma silenciosa há décadas sem que haja uma reação coletiva global contra isso. Dados da OMS (2025) revelam que 33% da população mundial (mais de 2 bilhões de habitantes) sofre de transtornos ansiosos clinicamente diagnosticados – um aumento de 140% desde 2010. O Brasil lidera o ranking latino-americano, com 19 milhões de casos graves. Se somarmos os faixas – leves e moderados – o número de doentes ultrapassa fácil casa dos 32 milhões de pessoas.

           Nesse contexto, preciso citar o que organizei como os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse Moderno”, sendo:

  •  – 1º Lugar as telas – Dopamina On Demand (dopamina sob demanda): Estudo do MIT (2024) comprovou que checamos dispositivos 147x/dia em média – cada toque ativa receptores de ansiedade no núcleo accumbens cerebral. A cada 9,79 minutos (em média) nos conectamos criando expectativas positivas e recarregando as baterias das frustrações também. Fora o tempo que permanecemos no contato com o aparelho buscando estímulos.
 
  • – 2º  Alimentos ultraprocessados – A lista é longa e em outra oportunidade trarei mais dados sobre essa importante variável. Mas a Química do Pânico, foi objeto de uma  Pesquisa da USP (2025) que associou corantes como tartrazina (presente em 82% dos snacks brasileiros) à hiperatividade do eixo HPA, responsável pelas crises de ansiedade. A lista completa e o resultado de outras pesquisas, somados, apavoram.
 
  •  – 3º Lugar cobranças profissionais – A nova geração de apps usa algoritmos de anxiety farming (que usam a ansiedade como motor) que mantêm usuários em estado de alerta permanente para maximizar engajamento. Hoje, não basta entregar resultados; é preciso performar entusiasmo, estar sempre disponível, sempre pronto, sempre online. Isso esgota o sistema nervoso, que nunca entra em repouso. O trabalho migrou para dentro do bolso. Segundo levantamento de 2025 da empresa Gallup, 68% dos profissionais verificam mensagens de trabalho após as 21h, mesmo sem exigência formal. Isso ativa o “modo ameaça” do cérebro antes do sono.
  • 4º Lugar isolamento social – Embora mais conectados como nunca continuamos presos dentro de nós mesmos. O isolamento não é mais geográfico — é emocional. Pesquisas da Universidade de Oxford (2024) mostram que o aumento do uso de telas está diretamente relacionado à queda de interações presenciais de qualidade. E o cérebro humano foi projetado para o calor da presença, não para pixels. Sem convivência real, perdemos as micro correções emocionais que só a vida social oferece: o olhar de apoio, o toque, a risada compartilhada. Isso reduz a produção de ocitocina e aumenta os níveis de cortisol — combinação ideal para o surgimento de ansiedade. Quando não há estímulos sociais equilibrados, a mente começa a se ouvir demais — e, quando isso acontece, as preocupações ganham megafone. O isolamento é o ambiente perfeito onde a ansiedade se multiplica, porque o ser humano precisa sentir que pertence. E onde falta pertencimento, sobra medo

           Chegamos então a Bifurcação Necessária(Diagrama de Venn comparando ansiedade adaptativa vs. patológica), porém sem direito a escolhas, pois nossas percepções foram sequestradas pelos múltiplos acontecimentos e necessidades de um tempo que não dá tempo ao sujeito. E nesse sujeito, o seu Motor da Sobrevivência (aquela resposta biológica aguda (15-30 segundos) que nos fez escapar de predadores.  Com ativação esporádica do córtex pré-frontal) cede lugar a outra forma de funcionamento cerebral.  Onde “Tumores Psíquicos” acionam um estado crônico permanente (85% dos casos atuais). Nesse estado, a amígdala cerebral sequestra o sistema límbico. Pesquisadores da Unicamp identificaram mutações epigenéticas transmitidas gestacionalmente em mães sob estresse contínuo.

           Ainda não há fortes ventos de esperança, mas suaves brisas de consciência, ética e humanismo podem ser sentidas em alguns lugares. Recentemente países nórdicos implementam o Direito ao Desconexão (proibição de e-mails após 18h), o Brasil patina em políticas paliativas. Mas iniciativas como o Protocolo Gaia (tratamento combinando microdosagem de psilocibina com reprogramação de hábitos via IA) mostram eficácia de 89% em casos resistentes.

           Na próxima semana, desvendaremos como a cronobiologia alimentar pode reescrever nosso diálogo com o tempo – e por que jantar após as 20h17 é um ato de guerra contra nosso relógio interno. Prepararemos um guia prático para transformar pequenos rituais em antídotos contra a hiperaceleração.

           O caminho existe. A porta está entreaberta. Basta decidir qual versão de nós mesmos queremos alimentar hoje.

Por, Paulo Lovi, Psicanalista, Jornalista e Mestrando em Neuropsicologia – Direto da fronteira entre o neurônio e a alma

@psicanalistapaulolovi

 

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Artigos: 24

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